Pra que ficar sério? Por que fazer piadas necessariamente "inteligentes"? Ora, o que seria do mundo sem a espontaneidade da idiotice (falo da idiotice "consciente", aquela quando você conta a piada do lisossomos ou fala qualquer besteira -boa- sem pensar)?
Ontem mesmo eu escrevi sobre o mau humor. Hoje eu falo de algo que, muitas vezes, seja o motivo para que ele se desponte, ou piore.
Essa coisa de forçação de barra, pseudismos e afins, têm corrompido um pouco a essência do inocente. Usar demais o racional também estraga um pouco o verdadeiro sentir das coisas. Ser infantil (no bom sentido da palavra) não mata ninguém, muito pelo contrário, nos faz mais soltos e descolados da aparente rigidez que ronda a cara e o jeito das pessoas. Todos nós possuímos as idades que passamos até então, dentro da gente.
É, chutar o balde de vez enquando, desta maneira, não faz mal a ninguém.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Mau humor
Cara de bunda, olhos soltando faíscas para tudo que é lado. Nessa hora, o seu melhor melhor amigo é o cigarro, a solidão, a bebida, a cusparada que você acabou de jorrar no chão e permaneceu olhando para ela. O mundo não é mais seu. Você se sente completamente exterior a ele. Por mais que pense que tudo vai dar errado, o limite para o mau humorado é o céu, justamente por ele não se sentir delineado pelo postiço sorriso de "bom dia" e pelas simples cerimônias que adornam a nossa rotina. É, ninguém gosta de estar na mira de um mal-humorado. Não, mesmo. Nem eu, apesar de minha peculiaridade ser o mau humor.
O desejo maior nessas horas é de sumir, encontrar um lugar para se acomodar e pensar, ou não pensar, o que acaba sendo melhor. Gera menos stress. E esse stress vem seguido de tristeza, daquelas muito doloridas... Quando você se priva do ensejo de não pensar, todos os conflitos que ocorrem no peito vêm à tona e é inevitável que as lágrimas desçam. Isso tem nome: consciência pesada.
Diante desse sentimento, que é cada vez mais comum em locais muito agitados, onde a pressa deve ser a amiga da perfeição, uma das únicas coisas que você pode fazer é se dar "ao luxo" de matar algo que é intrínseco a sua responsabilidade. É um clichê dizer isso? Talvez, e mesmo se o for, que se foda. Acredito que essa seja uma das maneiras de tentar solucionar a complexa equação do mau humor. Mas lembre-se: não vá esquentar a cabeça depois. Afinal, as águas que já passaram pela pedra jamais serão as mesmas.
O desejo maior nessas horas é de sumir, encontrar um lugar para se acomodar e pensar, ou não pensar, o que acaba sendo melhor. Gera menos stress. E esse stress vem seguido de tristeza, daquelas muito doloridas... Quando você se priva do ensejo de não pensar, todos os conflitos que ocorrem no peito vêm à tona e é inevitável que as lágrimas desçam. Isso tem nome: consciência pesada.
Diante desse sentimento, que é cada vez mais comum em locais muito agitados, onde a pressa deve ser a amiga da perfeição, uma das únicas coisas que você pode fazer é se dar "ao luxo" de matar algo que é intrínseco a sua responsabilidade. É um clichê dizer isso? Talvez, e mesmo se o for, que se foda. Acredito que essa seja uma das maneiras de tentar solucionar a complexa equação do mau humor. Mas lembre-se: não vá esquentar a cabeça depois. Afinal, as águas que já passaram pela pedra jamais serão as mesmas.
Epifânio Plasmático, o cavalo sonhador
Epifânio Plasmático estava sentado em sua velha poltrona feita de ossos de primatas. Seu porco de estimação, Mephistópheles, estava tirando a poeira dos móveis quando seu patrão o chamou:
- O que temos para comer hoje, Mephistópheles?
- Intestino delgado humano e orelha de macaco albino.
- Mas que porcaria, Mephistópheles!
- É a única coisa que temos, senhor.
- Então tudo bem. Sirva e vamos comer.
Mephistópheles serviu o jantar e ambos se sentaram à mesa.
- O que aquele filho de uma puta pensa que somos?
- Já mandei o matar, senhor, como pediu.
- Mesmo?
- Ora, estamos comendo o seu intestino delgado.
- Ah! Você merece um aumento no seu salário!
- Obrigado, senhor... Deveras, perdoe-me o mau comentário, mas acho que já estava na hora... Enfim, este era um dos únicos humanos que restaram aqui na Terra. Ainda há alguns comendo a pastagem.
- Pois alimente-os bem! Quero-os gordos e fortes. A propósito, o que o humano Edgard tem feito enquanto não come?
- Eu o peguei escrevendo na parede como um louco. Fui ler e lá havia uma tentativa de formulação revolucionária. Decerto, aquele inepto será castrado e degolado em breve. Ele sabe que a raça humana está praticamente extinta. Como pode um humano tentar instaurar uma revolução dentro do nosso estabelecimento?
- Rá! Não o mate, Mephistópheles! Este terá um fim cruel. Aguarde. Vou arquitetá-lo com muito cuidado... E não faça nada sem que eu mande.
- Acho que ele anda nos subestimando, meu caro Epifânio... As incrições na parede estavam sendo feitas em sua língua natal, o inglês. Edgard pensa que, só porque tal língua desaparecera há sete séculos, não temos mais conhecimento da mesma.
- E você conseguiu captar a ideia central de suas inscrições, Mephistópheles? Digo, o ponto de inpiração dela.
- De acordo com o meu pouco conhecimento sobre a política dos humanos, senhor, as inscrições traziam um teor neoliberalista, misturando algumas ideias marxistas.
- Não me zombe! Karl Marx? Se o neoliberalismo já é praticamente pré-histórico, que dirá do marxismo!
- Foi o que concluí, senhor.
- E você chegou a ver alguns humanos reunidos com ele?
- Não senhor. Me parece que ele ainda estava arquitetando a insurreição para poder convocar os seus colegas de pasto.
Epifânio levanta-se vorazmente de sua cadeira e bate com toda a sua força na mesa, gritando:
- MATE-O AGORA!
- Mas senhor, não queria um tempo para pensar em uma morte merecida para esse primatinha de merda?
- Não há mais tempo. Ele está tentando implantar um regime para nos dominar.
- Sim senhor.
Mephistópheles foi com uma corda, uma pedra e uma faca para o pasto. Chegando lá, Edgard estava ajoelhado e lendo manifestos políticos de seu tempo.
- Levante, seu humano imundo.
Edgard se levantou imediatamente. Assustado, largou o livro no chão e logo depois deitou o seu corpo gordo e nu na grama fria do inverno.
Mephistópheles cravou-lhe certeiramente o coração e depois subiu a faca até a sua boca. Arrancou-lhe a cabeça e os olhos com uma incrível destreza e disse em humanês aos companheiros de pasto de Edgard:
- Que isso lhes sirva de lição. O próximo que for pego lendo qualquer porcaria de sua época, será punido com uma morte nada generosa.
O porco pegou a cabeça de Edgard e a levou até a casa de seu patrão.
- O que temos para comer hoje, Mephistópheles?
- Intestino delgado humano e orelha de macaco albino.
- Mas que porcaria, Mephistópheles!
- É a única coisa que temos, senhor.
- Então tudo bem. Sirva e vamos comer.
Mephistópheles serviu o jantar e ambos se sentaram à mesa.
- O que aquele filho de uma puta pensa que somos?
- Já mandei o matar, senhor, como pediu.
- Mesmo?
- Ora, estamos comendo o seu intestino delgado.
- Ah! Você merece um aumento no seu salário!
- Obrigado, senhor... Deveras, perdoe-me o mau comentário, mas acho que já estava na hora... Enfim, este era um dos únicos humanos que restaram aqui na Terra. Ainda há alguns comendo a pastagem.
- Pois alimente-os bem! Quero-os gordos e fortes. A propósito, o que o humano Edgard tem feito enquanto não come?
- Eu o peguei escrevendo na parede como um louco. Fui ler e lá havia uma tentativa de formulação revolucionária. Decerto, aquele inepto será castrado e degolado em breve. Ele sabe que a raça humana está praticamente extinta. Como pode um humano tentar instaurar uma revolução dentro do nosso estabelecimento?
- Rá! Não o mate, Mephistópheles! Este terá um fim cruel. Aguarde. Vou arquitetá-lo com muito cuidado... E não faça nada sem que eu mande.
- Acho que ele anda nos subestimando, meu caro Epifânio... As incrições na parede estavam sendo feitas em sua língua natal, o inglês. Edgard pensa que, só porque tal língua desaparecera há sete séculos, não temos mais conhecimento da mesma.
- E você conseguiu captar a ideia central de suas inscrições, Mephistópheles? Digo, o ponto de inpiração dela.
- De acordo com o meu pouco conhecimento sobre a política dos humanos, senhor, as inscrições traziam um teor neoliberalista, misturando algumas ideias marxistas.
- Não me zombe! Karl Marx? Se o neoliberalismo já é praticamente pré-histórico, que dirá do marxismo!
- Foi o que concluí, senhor.
- E você chegou a ver alguns humanos reunidos com ele?
- Não senhor. Me parece que ele ainda estava arquitetando a insurreição para poder convocar os seus colegas de pasto.
Epifânio levanta-se vorazmente de sua cadeira e bate com toda a sua força na mesa, gritando:
- MATE-O AGORA!
- Mas senhor, não queria um tempo para pensar em uma morte merecida para esse primatinha de merda?
- Não há mais tempo. Ele está tentando implantar um regime para nos dominar.
- Sim senhor.
Mephistópheles foi com uma corda, uma pedra e uma faca para o pasto. Chegando lá, Edgard estava ajoelhado e lendo manifestos políticos de seu tempo.
- Levante, seu humano imundo.
Edgard se levantou imediatamente. Assustado, largou o livro no chão e logo depois deitou o seu corpo gordo e nu na grama fria do inverno.
Mephistópheles cravou-lhe certeiramente o coração e depois subiu a faca até a sua boca. Arrancou-lhe a cabeça e os olhos com uma incrível destreza e disse em humanês aos companheiros de pasto de Edgard:
- Que isso lhes sirva de lição. O próximo que for pego lendo qualquer porcaria de sua época, será punido com uma morte nada generosa.
O porco pegou a cabeça de Edgard e a levou até a casa de seu patrão.
Cabeça com um olho quase no fim (5º madruga após a minha morte) – Da série "experiências póstumas"
Após a conversa com os meus companheiros de cemitério mais o novo morador, todos fomos dormir. Afinal já estávamos meio cansados e sonolentos por causa da bebida. Fomos deitar logo depois que a nossa cachaça acabou, lá pelas duas horas da manhã. Só consegui descansar por pelo menos uma hora, porque eu ouvi uns ruídos vindos do túmulo do Marcolino. Nessa hora, acordei um pouco sobressaltada e fui ver o que estava acontecendo. Eu tava a uma distância de uns 30 metros dali e me levantei cautelosamente para ver o que ocorria. Tudo muito escuro e eu mal conseguia ver aonde eu pisava. Os postes de iluminação ficavam muito distantes uns dos outros. Fui andando bem devagar e consegui enxergar uma sombra se movendo em cima da cova de nosso novo colega. Quando senti que a pessoa ou coisa que estava ali não percebia a presença de espíritos, avancei mais e fiquei a cinco metros da cena: era uma pessoa completamente encapuzada, inclusive o rosto. Ela portava uma pá e um pé-de-cabra na mão e estava desenterrando o caixão do Marcolino com uma velocidade inacreditável. Ao confirmar o que eu estava vendo corri para o lado do Bengão, que dormia sempre no mesmo lugar, uns 50 metros do local, e o acordei:
- Acorda, Bengão! Acorda!!!
- Que foi, moça?
- Tem uma pessoa desenterrando o caixão do Marcolino! Vamo correr lá!
- Tem certeza, minina? Aqui raramente entra ladrão... A gente protege a nossa casa muito bem!
- Então vamo lá procê ver!
- Tá bão, tá bão...
Eu e Bengão corremos feito loucos e a pessoa ainda estava lá, só que dessa vez, com o rosto destampado.
- Ih! Aquela ali não é a viúva do Marcolino? - perguntei ao meu colega.
- E num é que é? Foi essa aí que quase se jogou na cova do marido?
- Ela mesma!
Resolvemos nos aproximar mais, até ficarmos a uma distância razoável da cena.
- Pode deixar que eu vou na frente, minina. Se ela vê nóis, eu vou saber o que fazer. - Sussurrou o Bengão.
A viúva, apesar de desenterrar o caixão com muita pressa, não parecia estar com medo de nada que pudesse vir a ocorrer com ela.
- O que será que ela tá querendo do marido? - perguntei baixinho ao Bengão.
- Calma... Vam' vê... Quarqué coisa a gente assusta ela...
- Poxa vida... Eu sei que com a cara do Marcolinho eu não fui, mas não vam' deixar ela roubar o defunto, não... Será que ele foi enterrado com alguma coisa de tanto valor assim?
Já com grande parte do caixão desenterrado, a mulher pulou para dentro da cova do marido e com o pé-de-cabra em punho começou a golpear o tampo do recipiente.
- Vamo lá, Bengão! Olha o que ela tá fazendo!!
- Calma...
A viúva socava o caixão com certo cuidado e parecia temer furar o corpo do marido.
- Vamo chegar lá do lado dela. - disse o Bengão.
- Mas e se ela perceber alguma coisa?
- Vai não, é só a gente chegar de mansinho. - assegurou o experiente colega.
Chegamos bem ao lado da mulher. Ela estava tentando perfurar o centro do caixão. Após dez minutos de tentativa, ela fez o primeiro furo e começou a alargá-lo de cima para baixo e com muita cautela. Quando apareceu um pedaço do corpo do marido, ela se abaixou, limpou um pouco da terra que havia caído ali dentro e puxou com as mãos alguns pedaços de madeira que ainda a impediam de tocar ali dentro. Ela se abaixou e vendo a calça do marido, desabotoou com muita pressa e tirou do bolso de sua casaca um pote que continha um líquido amarelado e transparente. Eu e o Bengão estávamos assistindo à cena atônitos. A mulher colocou o pote ao lado do pé do meu colega, sem perceber a sua presença. Bengão se afastou para não esbarrar no objeto. Feito isso, ela tirou do outro bolso um facão de açougueiro e cortou a cueca de Marcolino, até aparecer a sua genitália por completo.
- Maravilha!! - exclamou a viúva com o facão levantado.
Ela se abaixou, puxou o membro do marido para cima e começou a decepá-lo na base como se fosse um pedaço de bife qualquer. Com o pinto do sujeito todo cheio de sangue meio coagulado na mão, ela começou a beijá-lo e a chupá-lo sem o menor pudor ou sequer algum sentimento de ojeriza. Após o ato necrófilo, a viúva pegou o pote, abriu-o e guardou o pênis do falecido ali dentro. Sentimos o cheiro do líquido e comentamos na mesma hora:
- É formol!
Cumprida a sua tarefa, a mulher se retirou da cova do marido e começou a jogar a terra de volta. E eu e o Bengão ainda paralizados pela cena que tínhamos acabado de presenciar.
- Porra, cara! Vamo fazer alguma coisa! - pedi ao meu comparsa.
- Ah, agora que ela fez isso nem dá pra fazer mais nada. Ela só queria era o pinto do caboclo.
E continuamos a observá-la terminando de enterrar o caixão do marido, como se já tivesse trabalhado como coveira em algum cemitério, e tudo isso foi feito com pouquíssima luz. O poste mais próximo estava a cerca de uns 100 metros dali. Após cobrir o caixão e afofar a terra, ela pegou o pote, o material utilizado e guardou dentro de sua enorme casaca preta.
- Velho, eu vou ter que conhecer direito essa doida. Bem que eu tinha comentado com o Jão da Pinga que ela devia gostar muito da piroca desse homi! - comentei em um tom bem assustado com o Bengão.
- A gente não pode ficar parado da próxima veiz... Vai que ela volta aqui de novo pra fazê ôtra merda!
- O que acha da gente segui-la até a casa dela?
- Ah, minina... Eu tô mei cansado e adoidado com esse trem que aconteceu aí... Deixa pruma próxima. - disse o Bengão já tranquilo. - É o que eu falo: nesse mundo só tem doido! E ôtra, a gente nem ia podê fazê muita coisa... Ela num tava nem aí! Eu senti que nem se aparecesse o capeta ali, ela ia se assustá! Só queria cortar fora o pinto do Marcolino.
Enquanto conversávamos, a viúva foi andando calmamente. Paramos para observá-la. De repente ela parou de caminhar, tirou o pote da sua casaca e começou a olhá-lo, como se tivesse o admirando. Ela colocou-o no chão e começou a rebolar em cima do pote e a soltar risadas meio loucas, quase entrando em um transe orgástico. A partir daí, ela deu umas gemidas, como se estivesse trepando com o seu marido.
- Oooohh!! Agora você é todinho meu! Não tem mais nenhuma filha da puta pra poder entrar nesse pau gostoso!
De súbito, ela olhou para os lados um pouco assustada, guardou o pote e começou a andar a passos largos e rápidos. Consegui convencer o Bengão a seguir a viúva, mas sempre andando em uma distância considerável dela, já que ela havia se assustado com alguma coisa e caminhava com mais pressa.
Quando ela estava na porta do cemitério, reparamos que ela deixou cair um pequeno objeto. Avancei nos meus passos para ver o que era, mas o Bengão segurou o meu braço e falou:
- Vai com calma, ela pode perceber a gente e ficá assustada.
Escutei o Bengão e esperei a viúva necrófila sair do cemitério.
- Eu tô abismada até agora com essa mulher...
- Pois é, minha fia... Bem-vinda à vida de morto! Disso aí eu nunca vi, não! Purisso que eu fiquei mei assustado! Mas agora já passô. Vam' lá ver o que essa doida dexô caí ali no chão!
O objeto estava caído bem na entrada do cemitério. Peguei e o cheirei. Era um porta-whisky. Estava vazio.
O meu companheiro pegou a garrafa da minha mão e também a cheirou. Deu uma olhada dentro dela, uma sacudida e concluiu:
- É sim, moça. Deve ser purisso que ela tava doida daquele jeito! Tá com cheiro de ser cana barata.
- Jesus toma conta...
Andei um pouco mais para ver aonde a louca já estava, mas ela já havia sumido.
- Vam' drumi, minha fia... Tá muito tarde. Fora que essa o Marcolino vai ter que saber!
Fomos andando para o interior do cemitério e cada um foi para o seu canto tentar recuperar o sono perdido após o macabro acontecimento.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Corpo ainda fresquinho (3º dia após a minha morte) - Da série "Experiências Póstumas"
Enquanto eu estava deitada na grama do cemitério da Paz, onde fui enterrada, eu enchia a cara de pinga e pensava no que deveria ter feito. Fiquei surpresa com o que alguns outros colegas defuntos mais experientes me apresentaram. O quê? Ah, algumas coisas que eu viveria, mas que não pude, porque a Sra. Morte, como sempre, chegou de surpresa. Mas eu ainda estava aprendendo o que de divertido eu poderia fazer enquanto ainda vagava por esse mundo intestinal.
Resolvi dar uma visitada na minha antiga casa. Fui andando tranquilamente pela avenida Catalão e percebia que algumas pessoas olhavam para mim, porque eu, como nova defunta, ainda não sabia lá reconhecer muito bem quem estava vivo ou morto; e principalmente crianças me olhavam. Daí me lembrei daquele papo de que elas podem ver fantasmas mais do que adultos, a não ser que seja médium ou qualquer bosta do gênero. Relevei e continuei caminhando pela avenida, com um cigarro na mão e um resto de whisky que havia conseguido na saída do cemitério com um presunto recém-assassinado.
Voltando para o cemitério, lá pelas dez da noite, encontrei alguns transeuntes de cabelos grandes e esvoaçantes, todos vestidos de preto. Pensei logo que poderiam ser os famosos frequentadores de cemitério, e realmente eram: os góticos. Tomei um susto tremendo quando vi o primeiro deles: tinha cabelos longos, a barba grande e o olhar afável. Logo pensei estar diante do Filho de Javé, mas não, era só mais um dos urubus frequentadores do Cemitério da Paz.
Entrando lá, vi aqueles pseudo-carniceiros fumando a maconha que os defuntos haviam plantado com tanto labor e amor. Resolvemos fazer uma revolta contra aquilo e achar alguma maneira de assustá-los de vez dali. Juntei-me ao Jão da Pinga e mais uns seis que eu havia conhecido no dia do meu enterro. O Jão era o mais velhaco do grupo e sabia sempre quando alguém temia espíritos, “sinto n’alma” dizia ele. O Pirambóia, um defunto de uns quarenta e dois anos, propôs que passássemos correndo perto deles, pois só assim eles teriam a percepção da nossa presença. O da Pinga tinha me contado que esse daí era um médico paranormal e que entendia do assunto. Então, nós nos dividimos: eu, Pirambóia e Marculim; Jão da Pinga, Gervásio, Tonim e Bengão. O meu grupo foi para onde havia a maior concentração de urubus e o grupo do Jão foi espiar a plantação de maconha.
Cheguei por trás do gótico que achei ser Jesus e dei um sopro bem no ouvido dele. Ele se assustou e olhou para trás rapidamente e os demais que estavam com ele ficaram meio apreensivos. O Pirambóia passou correndo na frente de uma menina que estava com uma garrafa de vinho Chapinha na mão e que era a primeira vez que pisava num cemitério durante a noite, com propósitos (obviamente) fora do normal: estava se iniciando na cultura urubunista.
De súbito, ela se levantou, agarrou-se no pseudo-Jesus e começou a gritar horrendamente com aquela vozinha de patricinha recém-saída do goticismo shoppiniano. Começamos a rondar o grupo dos góticos infortuitos e alguns deles podiam nos perceber claramente. Pelo menos uns quinze deles, já que no bando havia quarenta, fora os que estavam de gaiato se metendo com a nossa erva.
Pelo menos uns trinta deles começaram a correr e os outros dez ficaram parados feito mulas, porque acreditavam ter encontrado o cão ali e queriam ser levados por ele. Os outros gatunos maconheiros, uns dez, estavam sendo assustados pelo grupo do Jão da Pinga. Então, pelas minhas contas e as dos meus colegas, havia pelo menos sessenta urubus naquela noite.
Perguntei pro Jão que porra era aquela, daí ele serenamente olhou pra mim e respondeu, “minha fia... é qui hoje é aniversário daquele ali que parece Jisuis. Todo ano eles vêm pra cá e comemora, porque acha que ele é a encarnação dele, só que essa versão aí é a que eles acreditam ser o fio do diabo; eles acham que esse aí é o Sarvador deles”. Eu simplesmente dei um meneio de cabeça ao ouvir a resposta do meu amigo e tomei o último trago do meu whisky pra ver se pegava logo no sono.
Resolvi dar uma visitada na minha antiga casa. Fui andando tranquilamente pela avenida Catalão e percebia que algumas pessoas olhavam para mim, porque eu, como nova defunta, ainda não sabia lá reconhecer muito bem quem estava vivo ou morto; e principalmente crianças me olhavam. Daí me lembrei daquele papo de que elas podem ver fantasmas mais do que adultos, a não ser que seja médium ou qualquer bosta do gênero. Relevei e continuei caminhando pela avenida, com um cigarro na mão e um resto de whisky que havia conseguido na saída do cemitério com um presunto recém-assassinado.
Voltando para o cemitério, lá pelas dez da noite, encontrei alguns transeuntes de cabelos grandes e esvoaçantes, todos vestidos de preto. Pensei logo que poderiam ser os famosos frequentadores de cemitério, e realmente eram: os góticos. Tomei um susto tremendo quando vi o primeiro deles: tinha cabelos longos, a barba grande e o olhar afável. Logo pensei estar diante do Filho de Javé, mas não, era só mais um dos urubus frequentadores do Cemitério da Paz.
Entrando lá, vi aqueles pseudo-carniceiros fumando a maconha que os defuntos haviam plantado com tanto labor e amor. Resolvemos fazer uma revolta contra aquilo e achar alguma maneira de assustá-los de vez dali. Juntei-me ao Jão da Pinga e mais uns seis que eu havia conhecido no dia do meu enterro. O Jão era o mais velhaco do grupo e sabia sempre quando alguém temia espíritos, “sinto n’alma” dizia ele. O Pirambóia, um defunto de uns quarenta e dois anos, propôs que passássemos correndo perto deles, pois só assim eles teriam a percepção da nossa presença. O da Pinga tinha me contado que esse daí era um médico paranormal e que entendia do assunto. Então, nós nos dividimos: eu, Pirambóia e Marculim; Jão da Pinga, Gervásio, Tonim e Bengão. O meu grupo foi para onde havia a maior concentração de urubus e o grupo do Jão foi espiar a plantação de maconha.
Cheguei por trás do gótico que achei ser Jesus e dei um sopro bem no ouvido dele. Ele se assustou e olhou para trás rapidamente e os demais que estavam com ele ficaram meio apreensivos. O Pirambóia passou correndo na frente de uma menina que estava com uma garrafa de vinho Chapinha na mão e que era a primeira vez que pisava num cemitério durante a noite, com propósitos (obviamente) fora do normal: estava se iniciando na cultura urubunista.
De súbito, ela se levantou, agarrou-se no pseudo-Jesus e começou a gritar horrendamente com aquela vozinha de patricinha recém-saída do goticismo shoppiniano. Começamos a rondar o grupo dos góticos infortuitos e alguns deles podiam nos perceber claramente. Pelo menos uns quinze deles, já que no bando havia quarenta, fora os que estavam de gaiato se metendo com a nossa erva.
Pelo menos uns trinta deles começaram a correr e os outros dez ficaram parados feito mulas, porque acreditavam ter encontrado o cão ali e queriam ser levados por ele. Os outros gatunos maconheiros, uns dez, estavam sendo assustados pelo grupo do Jão da Pinga. Então, pelas minhas contas e as dos meus colegas, havia pelo menos sessenta urubus naquela noite.
Perguntei pro Jão que porra era aquela, daí ele serenamente olhou pra mim e respondeu, “minha fia... é qui hoje é aniversário daquele ali que parece Jisuis. Todo ano eles vêm pra cá e comemora, porque acha que ele é a encarnação dele, só que essa versão aí é a que eles acreditam ser o fio do diabo; eles acham que esse aí é o Sarvador deles”. Eu simplesmente dei um meneio de cabeça ao ouvir a resposta do meu amigo e tomei o último trago do meu whisky pra ver se pegava logo no sono.
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segunda-feira, 15 de junho de 2009
Momento ficção
Partindo desta sessão, que está servindo apenas como um "marcador", pretendo publicar as minhas produções "literárias". Divirtam-se (no sentido duplo da coisa).
terça-feira, 31 de março de 2009
Banheiro Feminino
Ah... O banheiro feminino! Há lugar que desperte mais intriga nos homens do que este? Acredito que não. Nunca irão saber o que ocorre entre aquelas paredes azulejadas. Por mais que o nome "banheiro feminino" nos aluda à ideia de que este seja um lugar público, ele jamais o será. Porque segredos (cabeludos ou não) já foram revelados (muitas vezes escandalizados) ali dentro, mas por incrível que pareça, muitas vezes não ultrapassam das portas.
Ele pode ser sujo, fedido, limpo, cheiroso, horrível, bonito, luxuoso, pobre. Pode revelar histórias e estórias. Papéis higiênicos imundos de sangue (ou podem denunciar) a quantas andam o ventre de uma mulher. E nos casos mais extremos, denunciar gravidez que era desejada, ou não (às vezes, da pior maneira). E não precisamos ir muito longe para analisar isso. É só aparecer por ali e pronto.
O banheiro feminino é cúmplice das mulheres. Jamais nos deixará na mão. E essa própria aura de cumplicidade que reveste tal lugar, muitas vezes pode contribuir para que um segredo entre duas mulheres (desconhecidas por exemplo) seja mantido. Só depende de quem está trancada numa daquelas misteriosas portinhas, usando o vaso; seja lá pelas necessidades fisiológicas, ou por simples prazer de escutar a conversa íntima dos outros.
Parece que ali é o local sagrado do sexo feminino. Um simples retoque de maquiagem, trocas de absorvente, desabafos doloridos, mágoas, choros, planos, traições, alegrias: todos são frutíferos para nós, mulheres. Podem ter certeza, meus rapazes. E se vocês querem realmente descobrir o que se passa dentro de um toillet feminino, vão ficar ao sabor de suas curiosidades. Não há como transmitir o que se passa ali dentro. Ali é o único local ainda imaculado, o único ainda "virgem", onde só é permitida a entrada de mulheres. Não, não é óbvio dizer isso. Por mais que algum dia nós tentemos transmitir-lhes o que se passa ali dentro, não será possível. Vocês mesmos já dizem que "mulher não é bicho fácil de ser entendido". Então, é melhor voltar para a conversa sobre o seu time de futebol...
Ele pode ser sujo, fedido, limpo, cheiroso, horrível, bonito, luxuoso, pobre. Pode revelar histórias e estórias. Papéis higiênicos imundos de sangue (ou podem denunciar) a quantas andam o ventre de uma mulher. E nos casos mais extremos, denunciar gravidez que era desejada, ou não (às vezes, da pior maneira). E não precisamos ir muito longe para analisar isso. É só aparecer por ali e pronto.
O banheiro feminino é cúmplice das mulheres. Jamais nos deixará na mão. E essa própria aura de cumplicidade que reveste tal lugar, muitas vezes pode contribuir para que um segredo entre duas mulheres (desconhecidas por exemplo) seja mantido. Só depende de quem está trancada numa daquelas misteriosas portinhas, usando o vaso; seja lá pelas necessidades fisiológicas, ou por simples prazer de escutar a conversa íntima dos outros.
Parece que ali é o local sagrado do sexo feminino. Um simples retoque de maquiagem, trocas de absorvente, desabafos doloridos, mágoas, choros, planos, traições, alegrias: todos são frutíferos para nós, mulheres. Podem ter certeza, meus rapazes. E se vocês querem realmente descobrir o que se passa dentro de um toillet feminino, vão ficar ao sabor de suas curiosidades. Não há como transmitir o que se passa ali dentro. Ali é o único local ainda imaculado, o único ainda "virgem", onde só é permitida a entrada de mulheres. Não, não é óbvio dizer isso. Por mais que algum dia nós tentemos transmitir-lhes o que se passa ali dentro, não será possível. Vocês mesmos já dizem que "mulher não é bicho fácil de ser entendido". Então, é melhor voltar para a conversa sobre o seu time de futebol...
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Moedor de ego
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