Estes tempos que vivemos revelam uma coisa que sempre fizemos: o descarte. De ideias, coisas e até pessoas. Costumamos comparar tempos passados como melhores, mas a realidade é que nossos aparatos tecnológicos só revelaram que mantivemos as mesmas tendências de sempre, mas com outra fantasia. Não quero dizer que as coisas não devam mudar, que devemos permanecer estacionados no tempo. O que consegui entender por detrás dessa queixa não é, essencialmente, a resistência à mudança, mas o descarte de princípios essenciais que nos mantêm vivos como a comunhão, a partilha, o convívio harmônico e fraterno com nossos familiares e semelhantes - enfim, o amor ao próximo.
É compreensível que muitos de nós tenhamos resistência a esses princípios, uma vez que eles vinham embalados em uma cultura rígida, ou seja, hipócrita. Nós quisemos nos libertar da embalagem que era bonita por fora e feia por dentro, mas agora não sabemos o que fazer com o conteúdo, que é o essencial, pois o recusamos de pronto por desconhecê-lo completamente. Por isso bate essa sensação de desamparo. Quando nos sentimos desamparados, a tendência é achar que somos descartáveis e por isso fazemos isso com o próximo antes que ele faça conosco. É uma espécie de descarte preventivo, pra evitar a dor antes que ela aconteça. Isso é como o velho bicho papão da nossa infância: ele existe até que chegue um adulto, acenda a luz do quarto e mostre que não tem nada ali. [1Jo:4-18]
Essa sensação de desamparo vem pra mostrar que nem sempre as coisas que julgamos seguras são de fato a segurança. É que o mundo que a gente vive tem uma sensação de realidade que parece incontestável. Eu particularmente aprendi que não é mais a sensação dessa realidade que me dá a segurança, mas a fé que tive de adotar por não mais confiar nas seguranças que este mundo me apresentou desde sempre. Antes de abraçá-la, tive meus preconceitos, e embora pouco saiba sobre ela, já está fazendo transformações profundas na minha vida. Sim, causa medo, é uma forma de viver que ainda desconheço, mas eis que ali, aos poucos, tenho encontrado uma paz e um descanso que o mundo jamais me ofereceu. [Ef. 4:22]