quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Prosa sobre a existência infernal com um cidadão comum

Mais um dia no meio da selva de concreto e aço. Você já deve saber como isso funciona. Almas frustradas correndo do nada para o nada em busca de continuar existindo de alguma forma. Olhares vazios, daqueles que te atravessam ao invés de te atingir, e muitos deles inclusive já perderam a capacidade de lhe emitir alguma espécie de socorro, um pedido de socorro que lhe peça de volta qualquer grão de humanidade no meio de tanta alma embotada. É difícil reencontrar a sua quando você se dá conta de que ela já está praticamente perdida.
– Bem vinda ao inferno, disse uma voz interrompendo minhas idéias. Eu sequer havia notado que essa pessoa havia se sentado ao meu lado, naquele banco cinzento do local mais agitado da cidade. Olhei para a figura e seus olhos estavam serenos e olhando para o infinito, totalmente contrastante com os da paisagem que nos cercava.
– Sim. O inferno, respondi, ainda olhando com curiosidade para essa pessoa.
– Algumas almas já se dão conta de que não tem querência de buscar um inferno noutro lugar.
Houve um silêncio. Fiquei um pouco perturbada com a fala daquela figura. Ela dialogava exatamente com tudo o que eu tava pensando até então.
– Eu acredito piamente no inferno, continuou. Só não preciso procurar por ele, projetá-lo numa dimensão qualquer. Eu gostaria muito de viver nas mais variadas formas de inferno que a mente humana já foi capaz de criar. É garantido que são espaços muito mais agradáveis do que este.
Seus olhos em momento algum pousaram sobre os meus. Eram serenos, mas ao mesmo tempo traziam alguma inquietude.
– Você me surpreendeu. Estava absorta  nessas idéias, eu disse.
– Reconheço os estranhos de longe. São dos meus, respondeu com segurança.
– E você não acha que é ingenuidade de nossa parte acreditar que aqui é o inferno, quando que essa é a mais pura normalidade? Não seria essa uma tendência nossa de continuar a encarar a realidade de forma maniqueísta? Perguntei.
– Não acho. Você encontra com facilidade pessoas que em algum momento da vida já foram iludidas com qualquer coisa, e que agora a desilusão lhes toma conta. Acredito que muito disso tem a ver com a projeção de inferno que a nossa cultura tenta nos mostrar. Você vê que a fé cristã imputa que o inferno existe para as almas ditas em pecado mortal. Acontece que ninguém precisa morrer pra provar essa existência. A desilusão muitas vezes causa o desespero, e eu vejo o desespero como o pior inferno, o pior castigo pra alma. Não creio que essa é uma forma propriamente apegada ao maniqueísmo porque não encaro a ilusão como uma forma de céu e a desilusão como uma forma de inferno. Eu enxergo que tudo isso faz parte do inferno que nos consome minuto a minuto, dia após dia, até o fim da nossa existência. Eles te dão uma torrente de ilusões, para depois irem tirando-as de você uma a uma, até que consigam esvaziar sua alma por completo.
– E se a gente nunca deixar de existir? Digo, continuar existindo de alguma forma? Questionei.
– Nem me fale. Eu não sei responder se a gente continua existindo de qualquer forma, mas eu espero que não, por favor! Disse com certo tom de aflição e puxando um cigarro da carteira.
– É, eu também não quero. Mas você já desistiu?
– Enquanto eu viver ainda vai existir qualquer chama aqui dentro, ainda que ela não resulte em nada significativo, falou acendendo seu cigarro e olhando pra chama do isqueiro, que permaneceu acesa por alguns segundos após dizer isso.
– E por que você acha que isso daqui é um inferno? Perguntei despretensiosamente.
– Porque eu vejo a existência como um castigo pra alma. É demasiadamente difícil suportar tanta merda junta. Pra muita gente isso daqui se torna suportável graças à sequência de ilusões a que são capazes de se apegar. Eu continuo tendo as minhas, tendo consciência delas ou não, mas creio que, olhando em primeira instância, quase todas já foram consumidas pelo fogo do inferno.
– E você considera a existência de todo como algo ruim?
– Não, não é de todo ruim, mas é insuportável a maior parte do tempo. Ainda há maneiras de resfolegar no meio desse mar de lama.
– Quais?
– Não sei, isso é muito particular. Tem gente que escapa comendo merda, fodendo, se entorpecendo com psicotrópicos ou com o dinheiro. Sei lá.
– É...
– A paz de alguns é o inferno de muitos. Quero logo a minha redenção.
– E qual será a sua redenção?
– Deixar de existir.
– E se não deixarmos de existir? Não sabemos...
– Não sei se de alguma forma a nossa consciência permanece existindo, talvez nunca saberemos. Só quem já foi pra falar, mas ninguém nunca voltou nem pra isso. Creio que deve ser tão aliviante que eles nem se atreveram pra contar o quanto a morte lhes foi interessante. Enfim, eu esperarei pelo meu fim. Um dia ele terá de vir.
– É mesmo perturbador pensar que existiríamos para sempre.
– Claro que é. Deixar de existir é uma das minhas esperanças, uma das coisas que me mantém em vida.
A figura tirou o celular do bolso e olhou para o visor. Pude ver, marcava cinco horas da tarde. Era o tal horário de pico.
– Bem, eu tenho que ir agora. Preciso religar meu piloto automático, disse dando um sorriso de canto de boca e olhando diretamente para mim pela primeira vez. De qualquer forma, eu lhe agradeço a companhia. É difícil esbarrar com estranhos, e eu senti que eu poderia conversar essas coisas com você sem ouvir disparates me acusando de depressão, loucura etc. Espero esbarrar contigo de novo.
A pessoa acendeu outro cigarro, olhou fundo nos meus olhos, sorrindo um sorriso sincero. Deu as costas e foi andando calmamente no meio daquela multidão de corpos cinzentos, apressados, até sumir por completo. Ela parecia ser a única a ter cor por ali.


Conto do Pastor Cremildo (Exclusivo!)

Era uma manhã de domingo e ele andava a passos largos e decididos. Cremildo Olegário da Silva estava acompanhado de Maria do Carmo Oliveira Batista, sua esposa, e os sete filhos, todos estampando no rosto aquela satisfação de ir ao culto para se eximirem dos pecados cometidos ao longo da semana. Não que esta estampa correspondesse ao que todos estavam realmente sentindo, pois Letícia, a filha de 19 anos do casal, estava indo a contragosto, mas nada de manifestar sentimentos avessos aos do resto da família. Tinha medo dos pais e dos irmãos. Bem, deixemos um pouco de lado o caso de Letícia e voltemos ao nosso fiel da Assembleia de Deus, o grande Cremildo.

Este homem de 44 anos trabalha como porteiro de um prédio localizado na região central de Belo Horizonte. Está na profissão há pelo menos vinte anos. Conheceu Maria do Carmo em uma viagem que fez à Aparecida do Norte, quando ainda eram católicos, isso na década de oitenta. Casou-se quando tinha vinte anos e Maria do Carmo, 18. Tiveram seu primeiro filho, Jacó, no mesmo ano do casamento. Ele, na flor da sua juventude, é um rapaz obstinado e concentrado no seu objetivo de virar pastor da Assembleia de Deus o mais breve possível. Vez ou outra vai praticar um pouco da sua firme retórica nos ouvidos dos detentos da penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. E seu pai, é claro, fica muitíssimo orgulhoso disto tudo. 

Enquanto Cremildo e a família caminhavam, todos no mesmo ritmo de seus passos, os pensamentos de nosso digníssimo estavam cada vez mais entorpecidos pela angústia de seus desejos mais profundos. A cada dia que passava, Cremildo pensava mais e mais nele, e o encantamento aumentava cada vez mais, o encantamento pelo seu andar, pela sua voz, pela sua postura vocal e pelo talento, ah... pelo grande talento que aquele homem tinha em ministrar um culto, seja aonde fosse, na hora que fosse. Mas este encantamento está concentrado no corpo dele, nas coxas dele, no volume nada modesto que ele guardava dentro de suas calças. E quem é ele? O leitor naturalmente perguntará. Estou falando de Jackson Ademilson Silveira, um pastor com grande influência na Assembleia de Deus do Barreiro, o bairro em que residia e a família de nosso amigo também. Jackson é um homem de pouco mais de trinta anos, 33 para ser exato. Casado, com quatro filhos. Está na profissão há dez anos. É atraente, dono de uma voz e um olhar terrivelmente sedutores. E foi isso que começou a construir o transe de Cremildo, e claro, a sua perturbação. Ele já estava assim havia pelo menos um mês, ficando progressivamente denso. Mais denso... E o corpo dele, e a voz dele, e o volume, o volume que o tal tinha ali dentro daquelas calças de linho. E o que dizer do paradoxo supracitado? Bem, a resposta é simples. O crente não queria se dar conta de que estava começando a sentir desejos por Jackson. Cremildo queria entrar numa zona de indistinção entre a falta do prazer que ele buscava e a admiração que ele tinha pela função de Jackson. Era a que ele recorria sempre que seus pensamentos eram inundados de fantasias pelo pastor. 
Chegaram à igreja, pontualíssimos como sempre. O culto começava às sete e meia da manhã e a família da Silva já estava lá meia hora antes. 

– Por que chegamos tão cedo hoje, pai? – perguntou Letícia, escondendo seu imenso desgosto de estar naquele lugar.
– Porque sim. Cê acha que tem hora pra chegar na casa de Deus? E quanto mais cedo for essa hora, melhor. – respondeu o pai numtom que incutisse a resignação imediata da filha.
Os outros filhos estavam em um silêncio tumular. A voz do pai sempre era a última sentença. E se um irmão era repreendido, os demais sequer ousavam em repetir o ato daquele. Quanto à mãe, a sua principal função era a de reproduzir e aplicar o discurso do pai, sem qualquer alteração. Ai dela se o fizesse.

Os pais sentaram-se na primeira fileira e os filhos, todos em silêncio, acomodaram-se no mesmo banco. Eram bancos com pouca extensão e por isso mesmo ficavam praticamente reservados à família de Cremildo. Jesimiel, o caçula de seis anos, havia metido um pequeno brinquedo no bolso, um bonequinho que veio dentro do ovo de páscoa que ganhou do obreiro da igreja, e começou a brincar com ele em cima de suas perninhas inquietas. O pai, que estava ao lado do mais velho, olhou o pequeno de rabo-de-olho e logo se inclinou para chamar-lhe a atenção:

– Jesimiel Lucas, guarda isso agora! Não é hora de brincar! – disse Cremildo em tom severo, mas em voz baixa.

O menino ouviu o pai e logo voltou com o brinquedo para dentro do bolso e permaneceu olhando para baixo, resignado. Letícia lançou um olhar de esguelha para o irmão e sentiu uma leve inquietação por dentro, porém se conteve. Os outros irmãos estavam todos olhando para frente, mantendo o silêncio que o ambiente presumia manter.
De uma porta aos fundos do altar, Jackson apareceu. Estava rodeado de fieis conversando alegremente com ele, entre os quais a maioria era de mulheres, quase todas solteiras. 

(Continua...)

Moedor de ego

 Apenas um sonho moedor de ego Pensou que passaria incólume? moedor de ego Aqui, mais um dia, desabafando na máquina de escrita moedor de eg...