quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Conto do Pastor Cremildo (Exclusivo!)

Era uma manhã de domingo e ele andava a passos largos e decididos. Cremildo Olegário da Silva estava acompanhado de Maria do Carmo Oliveira Batista, sua esposa, e os sete filhos, todos estampando no rosto aquela satisfação de ir ao culto para se eximirem dos pecados cometidos ao longo da semana. Não que esta estampa correspondesse ao que todos estavam realmente sentindo, pois Letícia, a filha de 19 anos do casal, estava indo a contragosto, mas nada de manifestar sentimentos avessos aos do resto da família. Tinha medo dos pais e dos irmãos. Bem, deixemos um pouco de lado o caso de Letícia e voltemos ao nosso fiel da Assembleia de Deus, o grande Cremildo.

Este homem de 44 anos trabalha como porteiro de um prédio localizado na região central de Belo Horizonte. Está na profissão há pelo menos vinte anos. Conheceu Maria do Carmo em uma viagem que fez à Aparecida do Norte, quando ainda eram católicos, isso na década de oitenta. Casou-se quando tinha vinte anos e Maria do Carmo, 18. Tiveram seu primeiro filho, Jacó, no mesmo ano do casamento. Ele, na flor da sua juventude, é um rapaz obstinado e concentrado no seu objetivo de virar pastor da Assembleia de Deus o mais breve possível. Vez ou outra vai praticar um pouco da sua firme retórica nos ouvidos dos detentos da penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. E seu pai, é claro, fica muitíssimo orgulhoso disto tudo. 

Enquanto Cremildo e a família caminhavam, todos no mesmo ritmo de seus passos, os pensamentos de nosso digníssimo estavam cada vez mais entorpecidos pela angústia de seus desejos mais profundos. A cada dia que passava, Cremildo pensava mais e mais nele, e o encantamento aumentava cada vez mais, o encantamento pelo seu andar, pela sua voz, pela sua postura vocal e pelo talento, ah... pelo grande talento que aquele homem tinha em ministrar um culto, seja aonde fosse, na hora que fosse. Mas este encantamento está concentrado no corpo dele, nas coxas dele, no volume nada modesto que ele guardava dentro de suas calças. E quem é ele? O leitor naturalmente perguntará. Estou falando de Jackson Ademilson Silveira, um pastor com grande influência na Assembleia de Deus do Barreiro, o bairro em que residia e a família de nosso amigo também. Jackson é um homem de pouco mais de trinta anos, 33 para ser exato. Casado, com quatro filhos. Está na profissão há dez anos. É atraente, dono de uma voz e um olhar terrivelmente sedutores. E foi isso que começou a construir o transe de Cremildo, e claro, a sua perturbação. Ele já estava assim havia pelo menos um mês, ficando progressivamente denso. Mais denso... E o corpo dele, e a voz dele, e o volume, o volume que o tal tinha ali dentro daquelas calças de linho. E o que dizer do paradoxo supracitado? Bem, a resposta é simples. O crente não queria se dar conta de que estava começando a sentir desejos por Jackson. Cremildo queria entrar numa zona de indistinção entre a falta do prazer que ele buscava e a admiração que ele tinha pela função de Jackson. Era a que ele recorria sempre que seus pensamentos eram inundados de fantasias pelo pastor. 
Chegaram à igreja, pontualíssimos como sempre. O culto começava às sete e meia da manhã e a família da Silva já estava lá meia hora antes. 

– Por que chegamos tão cedo hoje, pai? – perguntou Letícia, escondendo seu imenso desgosto de estar naquele lugar.
– Porque sim. Cê acha que tem hora pra chegar na casa de Deus? E quanto mais cedo for essa hora, melhor. – respondeu o pai numtom que incutisse a resignação imediata da filha.
Os outros filhos estavam em um silêncio tumular. A voz do pai sempre era a última sentença. E se um irmão era repreendido, os demais sequer ousavam em repetir o ato daquele. Quanto à mãe, a sua principal função era a de reproduzir e aplicar o discurso do pai, sem qualquer alteração. Ai dela se o fizesse.

Os pais sentaram-se na primeira fileira e os filhos, todos em silêncio, acomodaram-se no mesmo banco. Eram bancos com pouca extensão e por isso mesmo ficavam praticamente reservados à família de Cremildo. Jesimiel, o caçula de seis anos, havia metido um pequeno brinquedo no bolso, um bonequinho que veio dentro do ovo de páscoa que ganhou do obreiro da igreja, e começou a brincar com ele em cima de suas perninhas inquietas. O pai, que estava ao lado do mais velho, olhou o pequeno de rabo-de-olho e logo se inclinou para chamar-lhe a atenção:

– Jesimiel Lucas, guarda isso agora! Não é hora de brincar! – disse Cremildo em tom severo, mas em voz baixa.

O menino ouviu o pai e logo voltou com o brinquedo para dentro do bolso e permaneceu olhando para baixo, resignado. Letícia lançou um olhar de esguelha para o irmão e sentiu uma leve inquietação por dentro, porém se conteve. Os outros irmãos estavam todos olhando para frente, mantendo o silêncio que o ambiente presumia manter.
De uma porta aos fundos do altar, Jackson apareceu. Estava rodeado de fieis conversando alegremente com ele, entre os quais a maioria era de mulheres, quase todas solteiras. 

(Continua...)

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