terça-feira, 29 de setembro de 2009

Epifânio Plasmático, o cavalo sonhador

Epifânio Plasmático estava sentado em sua velha poltrona feita de ossos de primatas. Seu porco de estimação, Mephistópheles, estava tirando a poeira dos móveis quando seu patrão o chamou:
- O que temos para comer hoje, Mephistópheles?
- Intestino delgado humano e orelha de macaco albino.
- Mas que porcaria, Mephistópheles!
- É a única coisa que temos, senhor.
- Então tudo bem. Sirva e vamos comer.
Mephistópheles serviu o jantar e ambos se sentaram à mesa.
- O que aquele filho de uma puta pensa que somos?
- Já mandei o matar, senhor, como pediu.
- Mesmo?
- Ora, estamos comendo o seu intestino delgado.
- Ah! Você merece um aumento no seu salário!
- Obrigado, senhor... Deveras, perdoe-me o mau comentário, mas acho que já estava na hora... Enfim, este era um dos únicos humanos que restaram aqui na Terra. Ainda há alguns comendo a pastagem.
- Pois alimente-os bem! Quero-os gordos e fortes. A propósito, o que o humano Edgard tem feito enquanto não come?
- Eu o peguei escrevendo na parede como um louco. Fui ler e lá havia uma tentativa de formulação revolucionária. Decerto, aquele inepto será castrado e degolado em breve. Ele sabe que a raça humana está praticamente extinta. Como pode um humano tentar instaurar uma revolução dentro do nosso estabelecimento?
- Rá! Não o mate, Mephistópheles! Este terá um fim cruel. Aguarde. Vou arquitetá-lo com muito cuidado... E não faça nada sem que eu mande.
- Acho que ele anda nos subestimando, meu caro Epifânio... As incrições na parede estavam sendo feitas em sua língua natal, o inglês. Edgard pensa que, só porque tal língua desaparecera há sete séculos, não temos mais conhecimento da mesma.
- E você conseguiu captar a ideia central de suas inscrições, Mephistópheles? Digo, o ponto de inpiração dela.
- De acordo com o meu pouco conhecimento sobre a política dos humanos, senhor, as inscrições traziam um teor neoliberalista, misturando algumas ideias marxistas.
- Não me zombe! Karl Marx? Se o neoliberalismo já é praticamente pré-histórico, que dirá do marxismo!
- Foi o que concluí, senhor.
- E você chegou a ver alguns humanos reunidos com ele?
- Não senhor. Me parece que ele ainda estava arquitetando a insurreição para poder convocar os seus colegas de pasto.
Epifânio levanta-se vorazmente de sua cadeira e bate com toda a sua força na mesa, gritando:
- MATE-O AGORA!
- Mas senhor, não queria um tempo para pensar em uma morte merecida para esse primatinha de merda?
- Não há mais tempo. Ele está tentando implantar um regime para nos dominar.
- Sim senhor.
Mephistópheles foi com uma corda, uma pedra e uma faca para o pasto. Chegando lá, Edgard estava ajoelhado e lendo manifestos políticos de seu tempo.
- Levante, seu humano imundo.
Edgard se levantou imediatamente. Assustado, largou o livro no chão e logo depois deitou o seu corpo gordo e nu na grama fria do inverno.
Mephistópheles cravou-lhe certeiramente o coração e depois subiu a faca até a sua boca. Arrancou-lhe a cabeça e os olhos com uma incrível destreza e disse em humanês aos companheiros de pasto de Edgard:
- Que isso lhes sirva de lição. O próximo que for pego lendo qualquer porcaria de sua época, será punido com uma morte nada generosa.
O porco pegou a cabeça de Edgard e a levou até a casa de seu patrão.

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