Mais um dia no meio
da selva de concreto e aço. Você já deve saber como isso funciona. Almas
frustradas correndo do nada para o nada em busca de continuar existindo de
alguma forma. Olhares vazios, daqueles que te atravessam ao invés de te
atingir, e muitos deles inclusive já perderam a capacidade de lhe emitir alguma
espécie de socorro, um pedido de socorro que lhe peça de volta qualquer grão de
humanidade no meio de tanta alma embotada. É difícil reencontrar a sua quando
você se dá conta de que ela já está praticamente perdida.
– Bem vinda ao
inferno, disse uma voz interrompendo minhas idéias. Eu sequer havia notado que
essa pessoa havia se sentado ao meu lado, naquele banco cinzento do local mais
agitado da cidade. Olhei para a figura e seus olhos estavam serenos e olhando
para o infinito, totalmente contrastante com os da paisagem que nos cercava.
– Sim. O inferno, respondi,
ainda olhando com curiosidade para essa pessoa.
– Algumas almas já se
dão conta de que não tem querência de buscar um inferno noutro lugar.
Houve um silêncio.
Fiquei um pouco perturbada com a fala daquela figura. Ela dialogava exatamente
com tudo o que eu tava pensando até então.
– Eu acredito
piamente no inferno, continuou. Só não preciso procurar por ele, projetá-lo
numa dimensão qualquer. Eu gostaria muito de viver nas mais variadas formas de
inferno que a mente humana já foi capaz de criar. É garantido que são espaços
muito mais agradáveis do que este.
Seus olhos em momento
algum pousaram sobre os meus. Eram serenos, mas ao mesmo tempo traziam alguma
inquietude.
– Você me
surpreendeu. Estava absorta nessas idéias, eu disse.
– Reconheço os
estranhos de longe. São dos meus, respondeu com segurança.
– E você não acha que
é ingenuidade de nossa parte acreditar que aqui é o inferno, quando que essa é
a mais pura normalidade? Não seria essa uma tendência nossa de continuar a
encarar a realidade de forma maniqueísta? Perguntei.
– Não acho. Você
encontra com facilidade pessoas que em algum momento da vida já foram iludidas
com qualquer coisa, e que agora a desilusão lhes toma conta. Acredito que muito
disso tem a ver com a projeção de inferno que a nossa cultura tenta nos mostrar.
Você vê que a fé cristã imputa que o inferno existe para as almas ditas em pecado mortal. Acontece que ninguém precisa morrer pra provar essa
existência. A desilusão muitas vezes causa o desespero, e eu vejo o desespero
como o pior inferno, o pior castigo pra alma. Não creio que essa é uma forma
propriamente apegada ao maniqueísmo porque não encaro a ilusão como uma forma
de céu e a desilusão como uma forma de inferno. Eu enxergo que tudo isso faz
parte do inferno que nos consome minuto a minuto, dia após dia, até o fim da
nossa existência. Eles te dão uma torrente de ilusões, para depois irem
tirando-as de você uma a uma, até que consigam esvaziar sua alma por completo.
– E se a gente nunca
deixar de existir? Digo, continuar existindo de alguma forma? Questionei.
– Nem me fale. Eu não
sei responder se a gente continua existindo de qualquer forma, mas eu espero
que não, por favor! Disse com certo tom de aflição e puxando um cigarro da
carteira.
– É, eu também não
quero. Mas você já desistiu?
– Enquanto eu viver
ainda vai existir qualquer chama aqui dentro, ainda que ela não resulte em nada
significativo, falou acendendo seu cigarro e olhando pra chama do isqueiro,
que permaneceu acesa por alguns segundos após dizer isso.
– E por que você acha
que isso daqui é um inferno? Perguntei despretensiosamente.
– Porque eu vejo a
existência como um castigo pra alma. É demasiadamente difícil suportar tanta
merda junta. Pra muita gente isso daqui se torna suportável graças à sequência
de ilusões a que são capazes de se apegar. Eu continuo tendo as minhas, tendo
consciência delas ou não, mas creio que, olhando em primeira instância, quase
todas já foram consumidas pelo fogo do inferno.
– E você considera a
existência de todo como algo ruim?
– Não, não é de todo
ruim, mas é insuportável a maior parte do tempo. Ainda há maneiras de
resfolegar no meio desse mar de lama.
– Quais?
– Não sei, isso é
muito particular. Tem gente que escapa comendo merda, fodendo, se entorpecendo
com psicotrópicos ou com o dinheiro. Sei lá.
– É...
– A paz de alguns é o
inferno de muitos. Quero logo a minha redenção.
– E qual será a sua
redenção?
– Deixar de existir.
– E se não deixarmos
de existir? Não sabemos...
– Não sei se de
alguma forma a nossa consciência permanece existindo, talvez nunca saberemos.
Só quem já foi pra falar, mas ninguém nunca voltou nem pra isso. Creio que deve
ser tão aliviante que eles nem se atreveram pra contar o quanto a morte lhes foi interessante.
Enfim, eu esperarei pelo meu fim. Um dia ele terá de vir.
– É mesmo perturbador
pensar que existiríamos para sempre.
– Claro que é. Deixar
de existir é uma das minhas esperanças, uma das coisas que me mantém em vida.
A figura tirou o
celular do bolso e olhou para o visor. Pude ver, marcava cinco horas da tarde.
Era o tal horário de pico.
– Bem, eu tenho que
ir agora. Preciso religar meu piloto automático, disse dando um sorriso de
canto de boca e olhando diretamente para mim pela primeira vez. De qualquer
forma, eu lhe agradeço a companhia. É difícil esbarrar com estranhos, e eu
senti que eu poderia conversar essas coisas com você sem ouvir disparates me
acusando de depressão, loucura etc. Espero esbarrar contigo de novo.
A pessoa acendeu
outro cigarro, olhou fundo nos meus olhos, sorrindo um sorriso sincero. Deu as
costas e foi andando calmamente no meio daquela multidão de corpos cinzentos,
apressados, até sumir por completo. Ela parecia ser a única a ter cor por ali.