Resolvi dar uma visitada na minha antiga casa. Fui andando tranquilamente pela avenida Catalão e percebia que algumas pessoas olhavam para mim, porque eu, como nova defunta, ainda não sabia lá reconhecer muito bem quem estava vivo ou morto; e principalmente crianças me olhavam. Daí me lembrei daquele papo de que elas podem ver fantasmas mais do que adultos, a não ser que seja médium ou qualquer bosta do gênero. Relevei e continuei caminhando pela avenida, com um cigarro na mão e um resto de whisky que havia conseguido na saída do cemitério com um presunto recém-assassinado.
Voltando para o cemitério, lá pelas dez da noite, encontrei alguns transeuntes de cabelos grandes e esvoaçantes, todos vestidos de preto. Pensei logo que poderiam ser os famosos frequentadores de cemitério, e realmente eram: os góticos. Tomei um susto tremendo quando vi o primeiro deles: tinha cabelos longos, a barba grande e o olhar afável. Logo pensei estar diante do Filho de Javé, mas não, era só mais um dos urubus frequentadores do Cemitério da Paz.
Entrando lá, vi aqueles pseudo-carniceiros fumando a maconha que os defuntos haviam plantado com tanto labor e amor. Resolvemos fazer uma revolta contra aquilo e achar alguma maneira de assustá-los de vez dali. Juntei-me ao Jão da Pinga e mais uns seis que eu havia conhecido no dia do meu enterro. O Jão era o mais velhaco do grupo e sabia sempre quando alguém temia espíritos, “sinto n’alma” dizia ele. O Pirambóia, um defunto de uns quarenta e dois anos, propôs que passássemos correndo perto deles, pois só assim eles teriam a percepção da nossa presença. O da Pinga tinha me contado que esse daí era um médico paranormal e que entendia do assunto. Então, nós nos dividimos: eu, Pirambóia e Marculim; Jão da Pinga, Gervásio, Tonim e Bengão. O meu grupo foi para onde havia a maior concentração de urubus e o grupo do Jão foi espiar a plantação de maconha.
Cheguei por trás do gótico que achei ser Jesus e dei um sopro bem no ouvido dele. Ele se assustou e olhou para trás rapidamente e os demais que estavam com ele ficaram meio apreensivos. O Pirambóia passou correndo na frente de uma menina que estava com uma garrafa de vinho Chapinha na mão e que era a primeira vez que pisava num cemitério durante a noite, com propósitos (obviamente) fora do normal: estava se iniciando na cultura urubunista.
De súbito, ela se levantou, agarrou-se no pseudo-Jesus e começou a gritar horrendamente com aquela vozinha de patricinha recém-saída do goticismo shoppiniano. Começamos a rondar o grupo dos góticos infortuitos e alguns deles podiam nos perceber claramente. Pelo menos uns quinze deles, já que no bando havia quarenta, fora os que estavam de gaiato se metendo com a nossa erva.
Pelo menos uns trinta deles começaram a correr e os outros dez ficaram parados feito mulas, porque acreditavam ter encontrado o cão ali e queriam ser levados por ele. Os outros gatunos maconheiros, uns dez, estavam sendo assustados pelo grupo do Jão da Pinga. Então, pelas minhas contas e as dos meus colegas, havia pelo menos sessenta urubus naquela noite.
Perguntei pro Jão que porra era aquela, daí ele serenamente olhou pra mim e respondeu, “minha fia... é qui hoje é aniversário daquele ali que parece Jisuis. Todo ano eles vêm pra cá e comemora, porque acha que ele é a encarnação dele, só que essa versão aí é a que eles acreditam ser o fio do diabo; eles acham que esse aí é o Sarvador deles”. Eu simplesmente dei um meneio de cabeça ao ouvir a resposta do meu amigo e tomei o último trago do meu whisky pra ver se pegava logo no sono.
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